RadarPOP Episódio 27: Criei, tive como
junho 28th, 2006 by Cristiano Dias | Filed under Podcast.Neste RadarPOP nosso enviado especial ao iSummit 2006 conta que diabos é essa história de Creative Commons e porque isso é muito importante para o Brasil. Nem que para isso precise da ajuda de dois grandes especialistas do assunto: o professor da FGV Ronaldo Lemos, coordenador do movimento no Brasil e uns dos manda-chuvas do iCommons no mundo (entidade que organizou o evento); e o mega-blogueiro, escritor e paladino da liberdade de informação Cory Doctorow.
Como o espírito do programa é conteúdo livre a trilha sonora é toda liberada em licenças Creative Commons. O fundo musical é por conta do projeto GeradorZero, incluindo duas peças de Concerto para Notebook e Harpa. Já a música da semana faz parte da coletânea Spread the Love, do site holandês simuze. É o som Sunny Days do pessoal do Sickboys and Lowmen. Logo em seguida, fechando o programa, a instrumental And how to translate it, do We vs Death. Se você ainda tiver sede de músicas livres pode conferir o site ccHits, criado pelo Fabricio Zuardi, grande ouvinte do RadarPOP.
Ainda deu tempo para falar da volta (”virtual” ou não) de duas séries de TV queridas do público. Para saber quais, só ouvindo o programa. Tudo isso bebericando Free Beer, a cerveja de código aberto. Lembre-se: it´s not just free beer.. it´s good beer!
Assim que a casa estiver arrumada será liberada a íntegra da entrevista com Cory Doctorow. Pedimos vossa paciência. Clique aqui para ler a tradução do trecho da entrevista exibida no RadarPOP.
Um oferecimento Vilago, a hospedagem oficial do RadarPOP.
Entrevista com Cory Doctorow
Cory Doctorow: Eu não sei… eu acho que o mundo em desenvolvimento está neste momento sob pressão do mundo desenvolvido para adotar regimes de direitos autorais que são completamente inconsistentes com suas tradições. Então você pode até ter uma população analfabeta mas se você pensar, por exemplo, na tradição popular que é totalmente baseada em um criar em cima do trabalho do outro — e esse normalmente é o caso da cultura de uma população analfabeta. Então a idéia é criar essas regras que não são consistentes com suas próprias tradições nacionais e que pegam o que sua população faz e torna ilegal. E o Creative Commons, além de um regime de licença que ajuda aqueles que querem compartilhar informações, é também um movimento para as pessoas que querem resistir a esse tipo de imperialismo de políticas.
Eu estive em um congresso em Uganda, na África, e um bibliotecário de lá me disse que os tratados de direitos autorais de hoje são como as políticas monetárias do FMI de outrora. O FMI ia aos países em desenvolvimento e dizia “você tem que privatizar seu abastecimento de água e vender para empresas estrangeiras”. Bom, na medida em que estes países seguiam as recomendações do FMI eles não se desenvolveram. Então na medida em que os países seguirem as políticas e tratados da OMPI [Organizacao Mundial da Propriedade Intelectual] e tradados uni- e bi-laterais de comércio com os EUA eles vão se colocar numa posição onde estarão vendendo seus interesses nacionais. Então trazer o Creative Commons para o Brasil significa, como o Brasil tem essa característica dividida, desenvolvida e subdesenvolvida, ele é de certo modo unicamente posicionado para ter uma intelligentsia que é conectada à cena internacional, que bloga, etc. que pode defender os interesses de uma população que não é conectada a esta cena e que tradicionalmente não teria ninguém defendendo seus interesses neste mundo. Eu acho que podemos sonhar em espalhar uma cultura de compartilhamento por todo o Brasil que seja uma cultura internacional de compartilhamento que o Brasil consiga usar para lutar contra a cultura internacional de guardar para si todo o conhecimento, a cultura que diz que o conhecimento é um bem que pode ser possuído e estocado por entidades internacionais de direitos.
O seu ministro da cultura, Gil, ele queria lançar sua obra sob o Creative Commons mas a Time Warner não deixou. Caramba, por que a Time Warner está dizendo ao ministro da cultura do Brasil se sua arte pode ou não pode ser usada pelo povo brasileiro para criar novas obras de arte?
RadarPOP: E o primeiro passo é simplesmente fazer as pessoas debaterem esse conceito e tem a ver com aquela idéia de porta de entrada que você falou. [No almoço antes da entrevista Doctorow contou que roubou da campanha anti-drogas o discurso de porta de entrada, no sentido de que a maconha seria uma porta de entrada para drogas mais pesadas.]
Cory Doctorow: Isso, isso… nós estávamos falando antes como o Creative Commons é a porta de entrada para o copyfight. Você começa com um pouquinho de Creative Commons e diz “bom… é uma idéia meio liberal-democrata… os criadores devem ser livres para permitir certas liberdades com suas obras”. Isso é verdade, eu acho que isso é o certo, eu sou um destes criadores. Mas a cláusula mais importante, se você olhar uma licença Creative Commons, é a segunda cláusula que diz que “Qualquer direito de uso legítimo (ou fair use) concedido por lei, ou qualquer outro direito protegido pela legislação local, não são em hipótese alguma afetados pelo disposto acima.” E estes são os direitos de uso que você pode exercer mesmo que o autor não queira que você os exerça! É nestes usos onde está o poder e a flexibilidade de um sistema de direitos autorais. Porque é na colaboração entre pessoas que não se conhecem ou não têm como encontrar-se pessoalmente — ou em alguns casos pessoas que são adversárias — que você encontra muita coisa nova emergindo. É um tipo de dialética… o crítico e o criticado, tomando de cada um, usando cada um. Eu às vezes penso nisso como um tocador de calipso, em um mercado. Você tem um calipso — eu sei que isso não é brasileiro — você tem um calipso que ouve uma música no rádio, que é uma música popular qualquer e ali, na hora, ele escreve uma nova letra e canta por cima, sobre a vida no mercado. Então você tem outro calipso do outro lado da rua que ouve essa nova música e escreve uma nova música sobre como o primeiro cara não fez um bom trabalho e como ele está fazendo uma música bem melhor e eles trocam conteúdo entre si. E você tem a platéia, a platéia está participando, movendo-se entre um e outro…
Isso é cultura, é uma coisa participativa, é a platéia e o autor vendo um ao outro e interagindo um com o outro e é esse o tipo de cultura que nós podemos encorajar ao ter uso livre, independente de autorização, uso antagônico livre e sem autorização em vez de depender simplesmente de Creative Commons. Por mais importante que Creative Commons seja, ele começa com permissão e nós precisamos de um estado livre de permissões.
Que ótima surpresa ver o Radarpop novo tão rápido!
O assunto do Creative Commons foi muito interessante (ainda mais que eu estudo direito, e o assunto envolve Direitos Autorais).
Quanto a volta de Firefly, é muito bom saber que esta grande série vai voltar a existir (mesmo que seja em quadrinhos), fosse a série produzida em outra emissora que não a FOX (que costuma assassinar os seriados antes que eles possam se desenvolver).
Eu apostava numa continuação de Firefly/Serenity no cinema. Assisti pela quinta vez o longa nesse final de semana e gosto mais a cada vez que assisto.
Para mim o Creative Commons foi uma sacada genial, principalmente para criadores independentes como eu. Tanto que coloquei todas as minhas histórias em quadrinhos na Internet sob Creative Commons.